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Beija-Flor campeã e o importante debate no bar

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‘Monstro é aquele que não sabe amar’

Por Caio Barbosa

Que Carnaval, hein, minha gente? Que Carnaval! O melhor nem foi a vitória da Beija-Flor, mas os debates nos botequins virtuais. Isso não tem preço, ainda mais para quem gosta de um bom debate e um bom botequim.

Assim sendo, queria acrescentar algumas considerações, e fazer a crítica da crítica à maior festa já vista na Sapucaí desde a sua inauguração e, quem sabe, desde o desfile da Mangueira sobre Braguinha, em 1984.

A enxurrada de protestos foi muita. Mesmo em meio à catarse. De todos os tipos. Desde as críticas construtivas e embasadas em conceitos pertinentes à festa, a outros que apenas disfarçam o preconceito.

Exemplos: “escola de bicheiro não pode falar em corrupção”. Como se todas não recebessem dinheiro da contravenção. Há ainda as que recebem dinheiro e influência do tráfico e das milícias. Como se toda a festa não fosse organizada pelos barões do jogo do bicho.

Ora, ou se é contra toda a festa, o que é plenamente justificável, ou se brinca “aceitando” as regras, que são dadas pela contravenção. Fazer da Beija-Flor a Geni é covardia. Dizer que apenas a Beija-Flor é hipócrita, tirando a si próprio deste balaio, chega a ser divertido.

Nada menos do que um desfile monumental

Outro exemplo: “ah, mas a escola fez samba sobre a ditadura”. Argumento utilizado ontem, inclusive por gente da nossa ditadura. É quase como um Temer criticando a corrupção. Ou o Bolsonaro falando em bandido bom é bandido morto sem se suicidar. Todas as escolas, sem exceção, fizeram sambas em alusão a ditaduras e aos governos. Também não é exclusividade da Beija-Flor.

Mas nos atenhamos ao monumental desfile deste ano. Sim, e uso monumental pois, independentemente da pertinência das críticas ou não, foi monumental. Há muita gente boa fazendo questionamento importantes e necessários.

O minimalismo das fantasias, muitas delas não carnavalizadas. Acho um importante debate a respeito. E gostaria que dele participassem os responsáveis pelo carnaval da Beija-Flor. Quero aprender com este debate. As alegorias, muitas delas teatralizadas. Inclusive demais para o meu gosto. Outro ponto importante. No meu caso, muito mais a teatralização em si do que qualquer outra coisa.

Também somo a estas críticas a comissão de frente e o abre-alas. Acho importante debater isso, porque também achei confuso. E admito que possa ter sido um espetáculo, mas fugiu à minha compreensão.

A crítica sobre o desenvolvimento do enredo é outra que eu queria entender. Li de mais de uma pessoa o termo “colagem caótica” de mazelas vividas pelo país. Ora, mas antes mesmo do desfile, não me lembro se o coreógrafo Marcelo Misailidis ou o carnavalesco Cid Carvalho, talvez os dois, tenha explicado que o desfile seria justamente uma colagem caótica das mazelas vividas pelo país. Um Frankenstein. Retalhos do seu próprio criador. Julgados pela força da ambição. É a letra do samba.

Mas a Beija-Flor, pelo visto, segue carregando sua cruz, à procura de uma luz, da salvação. Como também diz o samba.

Sobre a tal narrativa de direita e/ou que o enredo teria sido feito pela ou para a Rede Globo, me dá vontade de chorar. Ou então abraçar a direita, que pela primeira vez vejo denunciar a violência policial, a homofobia, a intolerância, o racismo, o caos na educação pública e a destruição das estatais.

Acho, inclusive, que a escola foi carinhosa com o Lula ao poupá-lo das críticas (ou não se pode mais criticar o Lula?). E por que poupou? Pelo fato de ele ser declaradamente Beija-Flor e padrinho de casamento do Neguinho? Esta discussão eu não vi.

Alguém se incomoda? Parece que sim

E este discurso de narrativa global ou enredo encomendado não encontra absolutamente qualquer acolhida nos fatos. O maior prêmio da história do Carnaval, o Estandarte de Ouro, não ofereceu nenhuma das 17 premiações à escola. Lamento e respeito, pois sei que temos ali pessoas sérias que militam no Carnaval, boa parte, inclusive, parceira de copo e de vida.

A transmissão do desfile da Beija-Flor também contrastava com o que acontecia na Avenida. À exceção dos comentários de Pretinho da Serrinha e Milton Cunha, inclusive com críticas importantes, o ufanismo foi nenhum. Na apuração, a apresentadora por pouco não disse que a escola não merecia o título. Ou seja, o tal complô Globo/Beija-Flor só existiu na cabeça daqueles que têm preconceito visceral contra a escola. Uma pena.

Por fim, acho que todas as questões criticadas e criticáveis precisam ser olhadas também por uma perspectiva trazida a mim pelo sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, figura fundamental da cultura carioca no século 21, peça fundamental no ressurreição do samba a partir da Lapa, no fim dos anos 90, idealizador do absolutamente fantástico e fundamental Trem do Samba, além da espetacular Feira das Yabás. Portelense e tricolor.

“Talvez as pessoas não tenham noção, mas a vitória da Beija-Flor com um sambaço que enfim arrastou uma multidão é fundamental para a festa, para o Carnaval, para escolas de samba enquanto cultura popular”.

E ele tem razão. Num momento em que o Carnaval sofre o boicote oficial da prefeitura, tem cada vez menos valor para quem tem os direitos de transmissão, reduzindo a festa em tamanho e importância, a vitória da Beija-Flor é uma vitória do Carnaval, da cultura popular.

O recado ficou claro na Avenida

Discurso semelhante teve o André Diniz, mega compositor da Vila Isabel (e não só), e o portelense Vagner Fernandes, entre outros. E que nos levam a uma última discussão. Pelo menos de minha parte.

A Beija-Flor já ganhou diversos Carnavais. Muitos merecidos, outros não. Perdeu outros que deveria ganhar também. Mas a questão é que na maioria das vezes que venceu, justa ou injustamente, encantou menos que outras escolas.

E em todas elas houve o debate sobre o encantamento do público versus a importância do cumprimento dos quesitos. Por que agora, quando fez o maior arrastão de alegria e emoção da história da Sapucaí, este debate sumiu? Uma pena.

Que venha a discussão. Que venha o botequim.

P.S. Com 15 minutos de desfile, o portelense Marcelo Novaes, dono do Cachambeer, e o mangueirense Toninho do Momo, via zap, mandaram: ACABOU! A CAMPEÃ É A BEIJA-FLOR. PASSOU O CARRO.

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