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Bola e Botequim: os que comem juntos

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O bebum agora virou ‘butequeiro’

Por Luiz Antonio SimasProfessor e historiador –

Não consigo enxergar o futebol apenas como espetáculo, brincadeira, jogo ou guerra; ele pode ser tudo isso e muito mais. Futebol no Brasil é cultura, faz parte de um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram.

A mesmíssima coisa vale para a cultura dos botequins. O problema é que não ando vendo muitas razões para otimismos. O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio de uma turma que parece percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Mais espanto ainda eu tenho ao perceber como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e do bebum (o correto agora é chamar de “butequeiro”) e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial.

O pessoal hoje faz selfie enquanto a bola rola

O craque se transforma em “jogador diferenciado”, o reserva é a “peça de reposição”, o passe vira “assistência”, o campo é a “arena multiuso”, e o torcedor é o “espectador”. Ir ao bar virou “butecar” e agora temos “lascas”, “reduções”, “camas de rúcula”, “confit”, “toques cítricos” e outros salamaleques semânticos, que os velhos frequentadores de biroscas jamais saberão do que se trata.

Eu fico na minha. Sinto-me hoje tão distante das mesuras elegantes dos sofisticados, das maneiras dos meninos e meninas da tal de “carioquice” descolada, quanto uma Testemunha de Jeová pode se sentir distante de uma gira de povo de rua.

No perrengue, vou ao menos matutando que no ngúni, idioma do grupo linguístico zulu falado em alguns lugares do sul da África, não há palavra que designe parentesco a partir do sangue. A expressão que define a relação de parentesco é ubudlelane: “os que comem juntos”. É na mesa, no balcão, no compartilhamento da comida, na união pela celebração da festa, que a ideia de parentesco se estabelece.

Isso dá pano pra manga para uma defesa dos botequins mais vagabundos, no meio do desencanto, como lares propiciadores de relações familiares, entre as geladas, as cangebrinas e os petiscos dinamizadores da celebração gordurosa da vida em comunidade. Sim, estou apenas buscando uma justificativa para ficar mais tempo no balcão. O que eu tenho de parente de bar não tá no gibi.

Longa vida ao Alma de Bar!

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