Sobre    Contato

Botequim é como clube de futebol

0
Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Madureira já recebeu Che Guevara no campo

Por Luiz Antonio Simas – Professor e historiador –

Acho que o hino de time de futebol mais bonito da cidade do Rio de Janeiro é o do São Cristóvão, composto pelo Lamartine Babo (o mais bonito do mundo é o do Canto do Rio, de Niterói, também obra do Lalá). Confesso, todavia, que escutar o hino do São Cristóvão hoje em dia me causa certa melancolia em relação ao Rio de Janeiro.

Os clubes de futebol de bairro – como o São Cristóvão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Bangu, Campo Grande e Madureira – têm uma trajetória muito similar a das escolas de samba. Mais do que times de futebol, eles representavam espaços em que as comunidades dos bairros conviviam, expressavam anseios, festejavam e se integravam em espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público.

Os desfiles de carnaval chegaram ao ponto em que as alegorias e fantasias se transformam em parafernálias e o componente virou garoto-propaganda do patrocinador; além de coadjuvante do delírio visual de alguns carnavalescos.

O futebol virou um negócio meio desalmado. A identificação entre jogador e clube desapareceu e a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado. Os clubes que não apresentem potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia (já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes numerosos) correm o risco de acabar ou penar em campeonatos de divisões intermediárias.

Sambódromo repleto no desfile: festa do povo?

Para quem acha que falo apenas de futebol, aviso que o buraco é mais embaixo: é a vida de bairro que agoniza. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo em Paris do que descobrir o que ocorre na esquina.

Este certo clima de desencanto só reforça, para mim, a importância de um botequim, um bar centenário… Precisamos destes espaços. Eles são esteios de memórias, aspirações, anseios, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos, alegrias e invenções da vida de inúmeras gerações que passaram por suas mesas.

Todo lugar, bato muito nesta tecla, é o resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada, e vai muito além da fachada e dos alicerces brutos. A sanha modernizadora, afeita aos grandes negócios, é aquela que esmaga o intangível.

Ela vê a tradição apenas como simulacro, e despreza o que não é mensurado pelas regras do mercado financeiro: a cultura e os seus lugares de memória; elos poderosos de ligação com o passado, lições vivas da ancestralidade de um povo que, contra o efêmero de escusas transações, sacralizou em rituais de celebração da vida as esquinas, botequins, sobrados, padarias, barbearias, quitandas e quizombas do nosso terreiro.

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.
Compartilhar:

About Author

Leave A Reply

vinte + treze =